Depressão na adolescencia

Depressão na adolescencia

Depressão na Adolescência

Eu não queria estar aqui mas a minha mãe obrigou-me!

E porque é que achas que a tua mãe quis que viesses falar comigo?

Porque eu já tentei suicidar-me e quero voltar a fazê-lo, aliás já tenho tudo planeado e sei exatamente como e quando isso vai acontecer.

Enquanto falava, um arrepio percorreu-me a espinha e um frio gelado, daqueles que vem mesmo do Pólo Norte apoderou-se de mim e por segundos, que pareceram intermináveis, dei por mim sem saber o que dizer perante aquela informação, acho que sobretudo pela forma fria e distante como falava sobre por fim à sua própria vida. Ao mesmo tempo, uma onda de compaixão apoderava-se de mim e só tinha vontade de o pegar ao colo e lhe dizer que tudo iria ficar bem. Não podia fazer nada disso… Respirei fundo para voltar a centrar-me.

A consulta acabou por correr bem e embora aparentemente tivesse ido obrigado pela mãe, quis voltar na semana seguinte. Nas primeiras sessões funcionei como “alguidar” para conter tudo aquilo que precisava de vomitar sobre o pai, a mãe, os irmãos, a anterior terapeuta e as miúdas….. Não confia em ninguém e foi sempre testando a minha capacidade de ficar com ele, independentemente da frieza com que falava sobre determinados conteúdos ou pessoas e a minha capacidade de manter a confidencialidade dos seus assuntos.

Frequentemente testava a minha fidelidade e a minha ética profissional. Já conhecia a manipulação que existia por parte da família e queria perceber se eu iria conseguir manter-me distante. Às vezes derrapamos e acabamos enredados nas teias familiares, mas neste caso mantive-me firme. Sabia que qualquer palavra ou passo em falso poderia inviabilizar a sua terapia, tal como já tinha acontecido anteriormente.

Não estou bem, mas também não estou mal, ou pelo menos já estou habituado a estar assim, já conheço e prefiro continuar a pisar em terreno conhecido”…. “Neutro” tudo é mais fácil.

Consigo compreendê-lo quando me diz que não se sente mal, que já está habituado a viver assim e que não sabe como será sentir de outra maneira! Na verdade o que ele me está a dizer é que tem medo! Medo de não saber viver com outros sentimentos, medo das oscilações de humor, medo de ter esperança e do tombo que pode sentir depois de experimentar a alegria ou o prazer….

Algumas pessoas descrevem a depressão como “viver num buraco negro” ou ter um sentimento de tristeza constante. Na verdade não é bem assim! Algumas pessoas deprimidas não se sentem constantemente tristes e nem a tristeza comum é sinal de depressão. Sentem sim falta de sentido e significado na sua existência, como se a vida fosse vazia e apática… Evidenciam comportamentos e atitudes de indiferença, letargia, falta de prazer, perda de interesse, agressividade, isolamento, falta de motivação, falta de esperança, abatimento, cansaço e incapacidade de tomar decisões…

Segundo Coimbra de Matos, pode haver depressão sem tristeza, mas seguramente não pode existir depressão sem abatimento.

Seja qual for o sintoma, a depressão é diferente da tristeza comum ou da simples desmotivação. A depressão interfere no dia-a-dia e altera a nossa capacidade de trabalhar, estudar, comer, dormir e ter prazer. Ficam parados e vazios, sem energia para concretizar e muito menos para sentir…. Limitam o contacto consigo próprios e com a vida! Os sentimentos de desamparo, desesperança e inutilidade são intensos e implacáveis.

Esse estado “neutro” sobre o qual tantos adolescentes falam, protege-os do sofrimento mas também lhes inibem a alegria, o prazer e isola-os.

A internet e os jogos de computador têm sido o verdadeiro refúgio desta geração, que se por um lado lhes permite manter algum contacto com o mundo e com as pessoas, ainda que virtual, por outro distorce a noção de relacionamento interpessoal e aumenta o medo e a ansiedade das relações “cara a cara”, chegando por vezes mesmo a desenvolver um estado de fobia social.

Precisamos estar atentos a esta que é uma das maiores doenças da atualidade. A depressão é uma perturbação que envolve o corpo, o humor, os comportamentos e os pensamentos…

Passados alguns meses continua a querer ir à terapia, passou de ano mas continua a ter muitas resistências em tratar-se verdadeiramente…

É o medo da vida que ainda o comanda!

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