Notas sobre a Depressão Infantil

Existem inúmeros momentos no desenvolvimento psíquico de uma criança que deslumbram os adultos e dão conta da complexidade da mente infantil. Argumentavelmente, um dos momentos mais interessantes é quando a criança adquire a capacidade de mentir e omitir.

Na mentira a criança encontra um escape da realidade por via da expressão do desejo: ‘o meu pai construiu esta ponte’. Outras vezes evita o desprazer de ser castigado: ‘não, não fui eu que fiz‘.

Ainda outras vezes vemos as crianças completamente silenciosas (que o adulto sabe que bom sinal não será). Em princípio a omissão será uma forma específica de mentira, ao serviço do evitamento do desprazer.

Digo que estes fenómenos são, argumentavelmente, importantes não só porque assim podemos observar o desenvolvimento da moralidade na criança, mas sobretudo porque trata-se um marco importante da distinção entre o ‘eu’ e o ‘não-eu’.

Se esta diferenciação não existisse não haveria propósito na mentira, nem tampouco na omissão, uma vez que o outro, magicamente, fusionalmente, simbioticamente saberia no que estou a pensar.

Relembro o título de uma importante obra do filósofo francês Paul Ricoeur: o si-mesmo como um outro. Neste trabalho o autor mostra, à boa maneira estruturalista, como o ‘eu’ pode ser compreendido com um ‘outro’.

Obtemos assim a possibilidade de mentir de nós-para-nós. Certos pensamentos e sentimentos que acabam por ser negados, escotomizados, recalcados, reprimidos (esquecidos) ou projectados. Isto é muito evidente na clínica do adulto, mas torna-se particularmente transparente na clínica infantil.

Quais as consequências desta mentira/negação? Como se comporta então uma criança deprimida? Se está à espera de manifestações depressivas como as encontramos no adulto desengane-se. Em termos bioquímicos trata-se do mesmo padrão, o substrato orgânico mantém-se, mas o padrão comportamental não, porquê?

Antes de avançarmos para as possibilidades clínicas da depressão infantil, gostaria que o leitor reflectisse sobre as funções da depressividade.

Porque deprimimos/entristecermos? A visão pós-moderna e materialista da depressão entende-a como um erro, um desiquilibrio (neuroquímico), um estorvo. Mas se a capacidade de entristecer é comum à espécie humana (a psicologia comparativa e etologia acrescentariam ao mundo animal) não estaremos a falar de algo que faz parte da própria natureza (pelo menos) humana? Em termos darwinianos, porque raio é que está característica terá sido seleccionada naturalmente?

Talvez o génio e o estilo peculiar do psiquiatra e psicanalistas António Coimbra de Matos nos ajude a clarificar pelo menos uma das funções da depressão, a saber: tratar dos lixos tóxicos. Restituiu-se assim o verdadeiro estatuto funcional da ‘depressão’.

A depressão, bem como as suas características (no adulto) – como são a lentificação, a inércia, a introspecção e a introversão – têm, neste sentido, um significado quase digestivo, aplicado à mente. O indivíduo rumina, mastiga, digere, elabora sobre episódios difíceis. No adulto, e de forma simplista/linear, assumimos que algum episódio despertou ou precipitou no sujeito um estado depressivo (reactivo) que tem por função ‘tratar o lixo tóxico’.

No adulto este esquema torna-se possível porque tem acesso a um sistema simbólico evoluído (digestivo) – a linguagem – e pode fazer tentativas de atribuição de significado aos acontecimentos depressivos. A criança não tem a mesma sorte…

Mesmo nos casos onde observamos uma boa capacidade de articulação e de raciocínio verbal (na criança) a capacidade de atribuição de significado está comprometida, até porque, não raras vezes, o que o deprime é o que faz parte do seu contexto mais próximo – a família – e a criança, diferentemente do adulto, não lhe pode fugir nem fazer frente. Pode então mentir de si-para-si e de si-para-o-outro… negando, recalcando, reprimindo, projectando…

Neste sentido as manifestações mais típicas de depressão na infância não passam pela visão clássica – deitar-se na cama com estores fechados a chorar sem querer ver ninguém.

A visão mais clássica da depressão da infância, na realidade é contrária e extremamente diversificada: agitação muito intensa, dificuldade em manter a atenção (combinação explosiva que a psiquiatria e psicologia moderna gostam de rotular de hiperactividade com défice de atenção), comportamentos de oposição, irritabilidade, delinquência, debilidade cognitiva, confabulações, somatizações, insónias, terrores nocturnos, enurese Enfim, poder-se-à afirmar que as manifestações da depressividade na criança apanham todo o espectro conhecido da psicopatologia. Dito de outro modo, é como se as manifestações clínicas fossem construções em cima da depressão.

Dada a sua diversidade não é de espantar que, ao olhar do adulto, a depressão infantil passe despercebida, muda, amordaçada pelos sintomas satélite que orbitam à sua volta. E assim se fecha o ciclo depressivo retornando à solidão não-vista e não-sentida.

Dr. Fábio Veríssimo Mateus

imagem@canonistas

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