Como o próprio nome indica, esta disciplina não é mais do que a versão para crianças da arte marcial que dá pelo nome de Aikido. Não cabe aqui descreve-la detalhadamente, mas interessa-nos conhecer, à partida, uma ou outra característica geral desta arte que teve a sua aparição já no Séc. XX.

É quase um lugar comum, quando se fala de Aikido, descrevê-lo como “a forma de aproveitar a força do ataque de um adversário para o derrotar”. E estaria quase certo, não fossem os conceitos  de “adversário” e “derrotar”, na verdade, deslocados no contexto da prática. Mas a frase é verdadeira quando refere implicitamente a não oposição à força do ataque do “parceiro” (é esse o termo usado nas aulas) para o derrubar ou imobilizar (o que não implica uma derrota). Na fluidez de movimentos está a chave para o conseguir. O resultado de um dado ataque será a projecção ou a imobilização do atacante, sempre executadas tendo em conta a integridade física dos dois parceiros.

É importante também salientar que a originalidade do Aikido está na resposta que oferece à violência. O conflito é encarado como um processo de comunicação durante o qual não se procura a destruição do contrário, mas sim “domar” a agressividade e a libertação da espiral de violência. O método de aprendizagem em Aikido permitirá ao praticante desenvolver, para além da resistência física, aspectos como a auto-estima, confiança, concentração ou espírito de cooperação (por oposição ao espírito de competição).

Não é pois difícil de perceber os benefícios que esta prática tem para os mais pequenos. As crianças aprenderão a proteger-se sem serem agressivas e a crescer tirando partido do seu próprio esforço. As aulas são orientadas para o desenvolvimento das capacidades dos alunos, tanto físicas como mentais ou sociais. O Aikido tem um curriculum próprio, que é adaptado à idade dos praticantes. Aos movimentos específicos da arte, cuja base é comum ao dos adultos, são acrescentados exercícios próprios para a idade e retirados os movimentos de luxação ou que constituem esforço demasiado para as articulações, ainda em desenvolvimento nas crianças. No Aikido, ao contrário de grande parte das artes marciais modernas, não existem competições.

A idade ideal para o início da prática do Aikido, considera-se por norma ser os seis anos. No entanto, e dada a não uniformidade no desenvolvimento psicomotor da criança, esta é só uma referência que terá de ser verificada caso a caso e as primeiras aulas serão fundamentais para avaliar a coordenação motora do aluno. Apesar de poder ser uma ajuda no desenvolvimento físico, o Aikido não poderá nunca substituir o trabalho da natureza em cada criança, pelo que um mínimo de maturidade é necessário para uma prática segura.

Quase como um resumo, diria que a pratica do Aikido para Crianças deve ser orientada em função de três factores fundamentais: a relação com o seu próprio corpo, com “o outro”, e com o mundo.

A relação com o seu corpo — Através dos movimentos circulares próprios do Aikido, a criança aprenderá a coordenar e controlar melhor os seus movimentos, bem como a descobrir as suas capacidades e limites físicos. Aprenderá a cair e levantar-se em segurança e que a queda é uma oportunidade para começar um movimento de novo. Aperceber-se-á do corpo de uma forma diferente e aprenderá a usá-lo de novas maneiras.

A relação com o outro — Os alunos perceberão, a par da sua, o valor da integridade física do parceiro de prática. Perceberão que um ataque, no Aikido, não é mais que uma oferta que alguém nos faz para podermos evoluir. Os alunos mais velhos serão encorajados a “olhar pelos mais novos” (não substituindo evidentemente a atenção do professor), e todos eles aprenderão a dosear o seu esforço em função do colega diante de si.

A relação com o mundo — Tentar-se-á transmitir à criança noções como a de que cada um tem o seu lugar no tapete e este é independente da força física, coragem ou destreza, que cair ou ser controlado não é uma derrota, que todos têm algo a ensinar ou aprender.

 

Como em qualquer outra actividade em que a formação da criança enquanto indivíduo é um objectivo, a assiduidade é um factor fundamental para que o Aikido “faça o seu papel”. Os pais têm por isso aqui um papel importante, não só de um ponto de vista logístico mas também percebendo a importância da regularidade e valorizando “cá fora” o que os mais pequenos aprenderam no dojo*. É também fundamental que acompanhem os filhos na sua primeira aula que, na maioria dos locais de prática, poderá ser feita a título de experiência. Sendo o Aikido uma arte que lida com a gestão da violência em cada indivíduo, é pois muito importante que os pais conheçam o ambiente que rodeará a prática das suas crianças.

 

*Dojo: Local onde se estudam as artes marciais. Do japonês local (jo) da via (do).

imagem@sayanouchi

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Publicado por João Tinoco

Nasceu em Lisboa em 1967 e tem o curso de Design do IADE. Começou a praticar Aikido em 1995 e a dar aulas desta disciplina em 2003. Em 2007, com um grupo de alunos, criou o Saya no Uchi - Associação de Budo. A partir de 2009, dedica-se quase exclusivamente ao ensino de Aikido a adultos e crianças. Em 2015 nasce o Isshin Dojo, no LX Factory, de que é responsável técnico. Tem o nível de 3º dan de Aikido Aikikai e é também praticante de Shinto Muso Ryu Jodo, uma arte marcial japonesa com origens no Séc. XVII. Ainda se dedica, ocasionalmente, ao design gráfico e à ilustração. Ilustrou livros infantis para as editoras Caminho e Gradiva.

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