Somos diariamente “inundados” com recomendações do tipo: “tens de ser positivo ”, “deixa lá isso, não sejas tão negativo”. .. mas é, mesmo,  assim tão simples? Basta pensar positivo para que tudo se resolva?

É preciso “separar as águas”. Não podemos confundir o ter uma atitude positiva, que se refletirá positivamente no relacionamento com os seus filhos, com atitudes de negação ou de evitamento do tipo: “não quero pensar nisso, logo se vê como se resolve” ou com passividade perante as dificuldades. Algures no tempo será inevitável  ter de se confrontar com algo “menos bom” e aí a coisa pode complicar, afinal não aprendeu a lidar com isso.

Criar uma bolha de ilusória positividade onde se coloca a si e aos seus filhos, não os prepara para a vida. Repare que até o ar que respiramos tem o equilíbrio necessário entre O2 e CO2, sendo ambos essenciais à vida. Para tudo há um + e um –. Cada escolha implica ganhos e, necessariamente, perdas, sendo importante que as crianças compreendam isso para que desenvolvam a sabedoria de escolher e de estar de forma positiva, sem ignorar o negativo, mas aprendendo a conviver tranquilamente com isso.

Não podemos “clivar” o que não queremos enfrentar, o que nos causa desconforto sob a máscara do “ser positivo”. Só nos estamos a enganar, criando a ilusão que tudo é tão e somente maravilhoso.

Então o que é pensar e estar de forma positiva? Eis alguns mitos que podem gerar confusão e levar a crenças distorcidas:

  1. Para ser positivo tenho de considerar, apenas, o presente?
    É fundamental aprender a viver cada momento (bom e menos bom) do presente e a não permitir que o passado invada a sua vida negativamente, mas a sua história faz parte do seu percurso de vida. Eliminar ou negar o que correu menos bem não elimina o negativo, pelo contrário, dá-lhe “força”. Mudar o que sente, hoje, em relação a isso será uma atitude mais consciente do que não quer para si e por isso mais positiva e mais saudável. Aceitar que existiram situações negativas é fundamental para viver, agora, melhor consigo próprio e com os outros.
  1. Ser positivo significa acreditar e arriscar sem pensar muito nas consequências?
    Ser positivo é acreditar, sim, mas não necessariamente sem equacionar as consequências, ou seja, o positivo vs o negativo. Pelo contrário, atitudes positivas estão diretamente relacionadas com o conhecimento das consequências. Se assim não for estamos a promover a imaturidade, a fragilidade e a pouca resistência à frustração. Imagine a seguinte situação: o seu filho(a) tem um teste no dia a seguir, mas vai procrastinando o estudo que terá de realizar, sabendo que tem treino a seguir. Uma atitude positiva passa por lhe explicar/relembrar as consequências de prolongar, que pode passar por não poder ir aos treinos da atividade de que tanto gosta. Se essa for a regra, isto pode servir de incentivo para ele(a) não continuar a adiar. Por vezes os pais tendem a ameaçar e a chantagear “ se não estudares não vais ao treino”. Aqui o que funciona é o medo da perda e não se aprende a escolher. Quando há regras pré-estabelecidas, não se coloca esta necessidade, afinal, todos têm conhecimento das consequências e podem por isso optar pelo que é entendido como sendo o melhor para si.
  2. Se eu for uma mãe com práticas positivas, afasto o negativo?
    Como já vimos negativo e positivo convivem de perto para que exista equilíbrio. Funciona como a alegria e a tristeza, só conhecemos uma delas porque algures no tempo já experienciamos a outra. Claro que ver o positivo será facilitador, em tudo na vida, incluindo no relacionamento com os seus filhos(as). Mas tenha presente que acima de tudo terá de ser genuíno. Fazer de conta que está tudo maravilhoso, só porque lhe soa bem, porque acha o melhor (mesmo que não sinta isso) ou porque é uma “onda” que lhe agrada, dificilmente, vai funcionar.

É preciso, verdadeiramente, querer sair da zona de conforto e experimentar sentir e fazer diferente. É errar e voltar a tentar, aprendendo algo com isso. E o que isto tem de positivo é que está a ensinar os seus filhos que nem tudo é perfeito, nem tudo tem de correr sempre bem, para nos sentirmos bem. E é através desta dialética que eles crescem mais fortes e que aprendem a valorizar positivamente o que a vida lhes proporciona.

Publicado por Helena Coelho

Helena Coelho, Lisboa Psicóloga Clínica na PsicoMindCare – Associação de Psicologia, de onde é sócia fundadora e, actualmente, Directora Clínica. Comecei como técnica de psicologia clínica na consulta de pedopsiquiatria do Hospital de Santa Maria. Passei por um Centro de Saúde e, recentemente, abracei um projecto que visa possibilitar o acompanhamento psicológico a quem precisa e não tem elevados recursos económicos. Uma das minhas características é ser determinada e dificilmente desistir dos meus objectivos. E porque “o sonho comanda a vida” tenho feito os possíveis para não deixar morrer a criança sonhadora que há em mim. Como é bom sonhar! E como é bom ajudar os outros a serem capazes de sonhar, a conseguirem perceber que podem conduzir a sua vida, de forma mais saudável e mais positiva! Compreender o ser humano, perceber os seus comportamentos e sentimentos é algo que me fascina, quase tanto como perceber as mudanças que vão ocorrendo pela intervenção psicológica. É, para mim, um privilégio poder ser facilitadora dessa mudança e do conhecimento próprio. No meu trabalho, enquanto psicóloga, é basilar aceitar e respeitar a singularidade de cada pessoa. Naquele momento e naquele espaço, apenas aquela pessoa importa. E é num contexto terapêutico contentor e pela relação terapêutica, desprovida de qualquer juízo de valor, que as emoções emergem podendo, então, ganhar novos contornos. Trata-se de ver para além do que nos é mostrado, ouvir para além do que nos é dito e devolver novos significados. No fundo é fornecer o papel e a tinta específica para cada pessoa, já que o artista, aquele que cria e transforma, está dentro de cada um de nós. Para além de gostar de ser psicóloga, gosto de viajar, de ler e de escrever, de tertúlias com os amigos, de estar em família e de estar totalmente relaxada no sofá, sem fazer nada. No meu percurso de vida, tive o enorme privilégio de ser mãe. Sou o que sou pelo amor que recebi, que recebo e, que por isso, consigo dar. A minha família é, para mim, o solo afetivo e o substrato que enriquece a minha existência. O ideal que ilumina a minha vida é acreditar! Acreditar que cada pessoa é capaz, que o que separa o que fazemos do que queremos é, tão simplesmente, acreditar que vamos conseguir. E foi com esse estado de alma que, conjuntamente com 8 colegas, fundámos em 2012 a Psicomindcare, uma associação de psicologia sem fins lucrativos que pretende ser e fazer diferente.

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